Eu canto
porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre
nem sou triste, sou poeta.
Irmão das
coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso
noites e dias
no vento.
Se desmorono
ou se edifico,
se permaneço
ou me desfaço,
-não sei, não
sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue
eterno a asa ritmada.
E um dia sei
que estarei mudo:
-mais nada.
(Viagem, 1939)

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